“O mundo quebra a todos, e mais tarde, muitos são mais fortes nesses pontos quebrados”
Ernest Hemingway
Minha prática com a cerâmica sempre esteve atravessada por uma inquietação:
como lidar com as peças que não saem como o esperado?
Durante muito tempo, elas ficaram ali — guardadas, esquecidas, ou destinadas ao descarte.
E isso sempre me incomodou profundamente.
Porque a cerâmica não nasce do nada.
Ela vem da terra.
Argila, minerais, óxidos — recursos naturais que extraímos da natureza.
E quando descartamos uma peça, não estamos jogando fora apenas um objeto,
mas também todo o processo, a energia e a matéria que vieram do mundo.
Ressignificar essas peças surgiu, então, como uma necessidade ética.
Um compromisso com o não desperdício.
Uma forma de interromper o ciclo de produzir e descartar.
Mas, com o tempo, percebi que havia algo mais.
Existe uma dimensão poética nesse gesto.






Me inspiro na filosofia do kintsugi — a técnica japonesa que repara cerâmicas quebradas com ouro, evidenciando suas cicatrizes ao invés de escondê-las.
Ali, o que foi danificado não é negado.
É valorizado.
É transformado em força.
E isso me atravessa profundamente.
Acredito que aquilo que nos fere também nos forma.
Que o sofrimento, as falhas, os desvios — tudo aquilo que não sai como planejado — é justamente o que nos constrói, nos amadurece, nos fortalece.
Na cerâmica, como na vida.
Ao customizar essas peças, não busco esconder seus defeitos.
Busco dialogar com eles.
Integrá-los.
Transformá-los em linguagem.
Cada peça que você vê aqui carrega uma história de tentativa, erro e transformação.
Ela já não é mais o que foi pensada para ser —
mas se tornou outra coisa, talvez mais potente, mais livre, mais verdadeira.
Ressignificar, para mim, é isso:
honrar a matéria, respeitar o processo e reconhecer beleza no que é imperfeito.
Porque, no fim,
não são as superfícies intactas que contam histórias —
são as que foram atravessadas.